Convivendo com alguém que tem dor crônica

É uma experiência única acompanhar e tratar pessoas com dor crônica. Mais único que isso é estar diariamente ao lado de alguém que sente dor há muito tempo. Único, difícil, cansativo e as vezes insuportável para qualquer um.

A pessoa que sente dor crônica se afasta de tudo e todos, não só porque está sentindo dor, mas também porque percebe o quanto as pessoas se sentem incomodadas com tanto sofrimento e limitações.

Por isso chamamos a dor crônica de doença crônica. O fato de ter virado doença afeta a saúde de forma geral. Quem está doente gosta de falar da doença, não é diferente com ninguém, pricipalmente com as dores / doenças da moda como a fibromialgia e dor miofascial.

A idéia de escrever esta postagem é mostrar como é fácil misturar a dor e o sofrimento como sintoma. Não é minha pretenção falar mal das pessoas que sentem dor crônica. Entendam que não é fácil lidar com as queixas e o sofrimento que a dor provoca. Cansa!

O familiar que convive

Da mesma forma que em outras doenças crônicas, a dor crônica provoca um desgaste intenso físico e mental nos familiares. Na fibromialgia, por exemplo, alguns familiares muito próximos também desenvolvem fibromialgia.

A fato da família não ser compreensiva e não ter a minima paciência de ter que ouvir queixas de dor é um dos grandes fatores que ajudam a dor a ficar persistente. Isso significa que a falta de apoio familiar destroi a pessoa com dor crônica = abandono.

Lembro de uma paciente que iniciou o tratamento com meu grupo de dor, ficou muito bem e do nada piorou abruptmente. Faz parte a piora, mas não abrupta. A paciente falou que todos os seus familiares a tratavam como inválida porque ela havia feito uma cirurgia.

Mas claro que isso não é receita de bolo. Muitos recebem apoio familiar que compreende o problema e ajuda no que for possível. Raros são os casos.

ahhhhh. como é bom ter uma familia unida e feliz!

O profissional que convive

Além dos psicólogos e psiquiátrias, nenhum profissional de saúde é preparado para lidar com o sofrimento, angústia, mau humor, medo, nervosismo, ansiedade, depressão dos pacientes. Tudo isso se mistura a dor ou muitas vezes é falado como dor.

Por várias vezes o terapeuta (profissional de saúde), além de não compreender a origem da sua dor, não aguenta a carga negativa de queixas. A barra de energia diminui. Perder a paciência é comum e ficar muito frustrado também, com a melhor das intenções de ajudar no melhor tratamento que o terapeuta pode oferecer. Isso se repete constantemente com os pacientes. Acabam visitando 300 profissionais distintos na busca de soluções milagrosas e rápidas para eliminar a dor de uma só vez. Já falei várias vezes aqui: milagre só a religião explica e soluções rápidas só com a velocidade burlesca. E ai a vida vai seguindo, a dor continua, as limitações persistem, o sofrimento aumenta e o isolamento também.

Por outro lado, é uma obrigação do terapeuta (no meu caso como fisioterapeuta) ter o apoio de um profissional da saúde mental para ajudar o paciente e ajudar a ele mesmo a lidar com a situação. Tarefa essa muitas vezes ignorada pelo ego e orgulho, principalmente de médicos e fisioterpeutas. E o tempo vai passando…

O paciente que convive

Um trabalho muito interessante realizado pelas enfermeiras Luciane Sanches e Magali Boeme da USP de Ribeirão Preto mostra como algumas pessoas convivem com a dor e separaram seus relatos em algumas frases:

-       algo incapacitante para vivenciar o cotidiano

-       algo que afeta o seu ser no mundo com os outros

-       algo que as pessoas ao redor não compreendem

-       algo cujo o alívio requer paciência

-       algo que requer saber conviver

-       algo que afeta a dimensão existencial

Veja o trabalho completo:

http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v36n4/v36n4a12.pdf

Outro trabalho muito interessante da psicóloga Adriana Loduca (Gatchel, 1996 e Loduca, 1999) da USP de SP descreve como a pessoa com dor crônica convive com sua dor. O nome do artigo é “Eu e minha dor: convivendo com um processo crônico”. Já viu que esse artigo é barra hein. HEHEHE.

:. “Eu sou a minha dor” – é chamado de caos total ou 2012. O corpo é a região que dói e a vida é voltada a tratamentos para a dor, causando muitas vezes desespero. Foco total na dor pensando sempre negativamente. A busca da vida, ao invés de ser o vale encantado, é a cura da dor.

:. “Eu e a dor dependemos um do outro”- quando não dói fica tudo bem, mas quando dói a vida acaba e não dá pra fazer mais nada. A dor persegue a pessoa igual ao “amigo oculto”.

:. “Eu odeio a dor” – a pessoa fica descuidada com o corpo e desgostosa da vida por causa da raiva e ódio mortal kombat da dor. Só procura ajuda quando precisa cuidar da dor.

:. “Eu me dou bem com minha dor”- a pessoa consegue conviver numa boa. A dor é desconfortável mas não causa temor. Esse é o estado ideal que procuramos manter os pacientes com dor crônica. Não é uma brastemp mas já é alguma coisa.

Resumindo: Não tá mas, tá bom. Nem carro eu tenho.

Ame sua saúde e:

:. Ao menor sinal de carência: arrume um namorado (a)

:. Ao menor sinal de tristeza: vá assitir As incríveis peripécias do ônibus atômico, mais precisamente a cena do pianista tocando “tangerina”.

:. Ao menor sinal de perda de paciência: apenas lamento.

:. Ao menor sinal de dor…

Dicas de saúde são sempre importantes né?

Até mais.

Abraços

Artur Padão Gosling

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